Reflexões sobre Escalada Esportiva

Arquivo para outubro, 2012

Trip Eterna

Uma das coisas que mais tem me motivado a escalar são as viagens. Eu sei que o Rio de Janeiro é uma cidade privilegiada com inúmeros picos de escalada, sendo que alguns eu nem conheço, mas a ideia de escalar fora daqui sempre me agrada.

Por isso, desde o início do ano venho dividindo uma casa em São Bento, com Gibara, João Ricardo e Xitão, e perdi as contas de quantas vezes escalei por lá. Além de São Bento, fui duas vezes a Ubatuba e duas vezes ao Cipó, quando o plano era ir três vezes. Meu dedo atrapalhou algumas trips, não pude ir para o Festival de São Thomé das Letras, por exemplo, mas elas continuam eternas!

Outra viagem marcada, que possivelmente será a mais incrível do ano e talvez da vida, tem como destino a Argentina, onde escalarei em Bariloche e Piedra Parada, na região do Chubut, local em que ocorrerá o Petzl RocTrip 2012 – post sobre os preparativos em breve!

Piedra Parada, Chubut, Argentina. Foto: Petzl.

Para fechar o ano, por volta de agosto, comecei a pensar no meu reveillon. Nordeste está em alta, com picos sobre os quais ouvi muito bem, como Igatú e Lençóis. Como lá, ao contrário do Sudeste, verão é o período de seca, achei que seria uma boa ideia fazer uma trip para lá para comemorar a virada do ano. Foi quando vi umas fotos das pedras de Itatim, cidade que fica cerca de 200 km de Salvador, e fiquei encantada!

Morro da Toca, Itatim. Foto Camilo Contreras.

Infelizmente, durante o reveillon tudo fica inflacionado e com as passagens mega caras, a ideia de conhecer Itatim foi sendo deixada de lado. Então, tive uma ideia muito melhor: passar o reveillon no Rio mesmo, ou em qualquer outro lugar que estará chovendo, e ir para Itatim em janeiro, entre o ano novo e o carnaval.

Camillo Contreras escalando a Sine Qua Non (8c), com proteção no melhor estilo Sächsische Schweiz, Alemanha! Foto: Vinícius Guimarães.

Procurei passagens, achei umas bem em conta, o que possibilitará que eu passe a última semana de janeiro escalando nesses tetos maravilhosos do Nordeste. Assumo que nunca pensei que fosse fazer uma viagem para lá, pois não sou muito fã de praia (atrativo mor do Nordeste), mas Itatim me conquistou!

Pelo o que eu ouvi, parece que no local tem cerca de 130 vias abertas e um potencial absurdo de mais de 1000 vias ainda não equipadas! Quem sabe não abro minha primeira via por lá? Acho que seria bem legal contribuir um pouco para desenvolver ainda mais a escalada no Brasil.

Estou muito ansiosa com as viagens! Agora é treinar a muerte e que as trips não terminem nunca!


O reencontro com a Floresta

Depois de um final de semana frio, porém incrível, em São Bento, voltei para o Rio animada para escalar novamente no Campo Escola 2000, chamado por muitos escaladores de Floresta, tendo em vista que o pico se localiza dentro da Floresta da Tijuca, no bairro do Alto da Boa Vista, Rio de Janeiro.

Mas antes, sexta-feira, fui com meus amigos alemães, Richard Steidel e Malte Heuer, escalar no Primatas, um pico com poucas vias, mas bem duras e de qualidade alta, em uma pedra com inclinação de 45º. A ideia era entrar novamente na Orangorock (8c), via que mandei no inicio do ano e que o Ritchi projetou como seu primeiro 8c brasileiro.

Orangorock (8c), Primatas, Rio de Janeiro. Foto: Raphael Gibara.

Acho que fui razoavelmente bem na via. Isolei facilmente todos os movs no primeiro pega e no segundo caí depois da costurada tensa, que muitos consideram o crux. Resolvi não tentar de novo, pois queria me poupar para a Floresta, destino de sábado. O Ritchi deu quatro pegas e caiu três vezes indo para a última agarra, o que derruba muitos escaladores e mov que eu considero o crux da via!

Sábado acordamos cedo e fomos os primeiros a chegar no CE 2000, onde tinha combinado de escalar também com a Glauce Ibraim. Raphael Gibara também disse que ia para fazer uns takes, mas como tive que sair cedo, não nos encontramos.

O lugar é muito mágico e na minha opinião a melhor falésia do Rio de Janeiro, ou pelo menos a minha favorita, com vias relativamente curtas e negativas.

Primeiro, entramos na primeira parte da Epitáfios das Ilusões (7c). Não entrava em seu final há mais de oito anos, quando a encadenei, meu primeiro 7c. Acho seu crux bem difícil, em que se pega em um abaulado com a mão esquerda, sobe o pé direito alto e senta nele para alcançar um reglete beeem longe com a mão direita. Consegui repetí-la, o que já me deixou bem feliz!

Eu com uns 16 anos na via Epitáfios das Ilusões (7c), Campo Escola 2000, Rio de Janeiro. Foto: Daniel Portugal.

Como o tempo era curto, tive que escolher entre apresentar para os gringos a Pedrita (8a) ou a Zona Morta (8b). Escolhi equipar a segunda, pois gosto mais por ser cheia de regletes e ter um descanso com entalamente de joelho de soltar as mãos, muito legal! Equipando, caí no crux e no segundo pega, quarto do dia, consegui mandá-la também.

Zona Morta (8b), Campo Escola 2000, Rio de Janeiro. Foto: Daniel “Osso”.

O fim de semana foi ótimo e me sinto cada vez mais segura, com relação ao meu dedo, para gradativamente começar a tentar vias mais fortes e exigentes! Além disso, senti que o treino durante o ano não foi pro lixo com as dez semanas de lesão. Não tenho seguido nenhum treinamento específico no muro, pois é onde eu ainda sinto um pouco meu dedo, então estou simplesmente fazendo volume para me exercitar durante a semana também, mas mesmo assim estou tendo um desempenho bem satisfatório na rocha!

Agora, a melhor notícia do final de semana: o inevitável aconteceu, a japonesa Tomoko Ogawa, de 34 anos, encadenou o primeiro V14 feminino! O boulder encadenado se chama Catharsis, localizado em Shiobara, Japão. Confiram o vídeo da cadena:


Feriado em São Bento

Quinta-feira, véspera de feriado de alguma coisa, mais uma vez o destino foi São Bento do Sapucaí, acompanhada de Raphael Gibara e Richard Steidel, para encontrar com os amigos João Ricardo, Arthur Gáspari, Luiza Rodrigues e Malte Heuer. A previsão do tempo não era muito promissora, mas como o objetivo era escalar a Sonho de Ícaro (7b), via localizada na Falésia dos Olhos, local onde se pode escalar mesmo com chuva, não me preocupei muito com o tempo. Entretanto, acabou que não fui escalar na sexta-feira, assumo que estava com preguiça de subir a trilha dos Olhos embaixo de chuva e afundando na lama!

Sábado o tempo melhorou um pouquinho e fomos escalar, mas como os Olhos são a única opção quando chove, a falésia estava lotada de escaladores e só pude dar dois pegas. Mesmo ainda preocupada com meu dedo, resolvi não entrar na Sonho de Ícaro, mas sim na Despertar de Ícaro (8b), variação que após do crux da via original, segue para a esquerda por muitos, mas muitos metros. A via toda tem em torno de 30/35 metros de agarras boas, tendo seu crux no final, com regletes que derrubam quem nao está com a resistência em dia, o meu caso!

No primeiro pega, fui até os regletes do crux, só seguindo os betas do Flavio Massa e Lukinha Rodrigues, o que me deixou bem feliz! Consegui isolar a sequência de regletes, mas preciso adquirir bastante resistência para escalar confortável na via. Depois de horas de espera, dei outro pega na via, sem muito sucesso, mas pude aperfeiçoar os movimentos e me apaixonar pela via. Apesar de não estar acostumada a vias longas, curti demais a Despertar e com certeza entrarei mais vezes!

Início da Sonho/Despertar de Ícaro, Falésia dos Olhos, Paraisópolis. Foto: Malte Heuer.

Com um tempo bem melhor no domingo, fui com Richard e Malte escalar na Pedra da Divisa, pico onde eu não ia desde o carnaval. Fui apresentada ao setor Comunista, onde se pode escalar vários 8os. Aqueci na via Justiça Invalível (6sup), que eu nunca tinha entrado, e resolvi conhecer a via Quem Mandou Não Estudar (8a). Com vários betas, a via saiu em flash, para a minha surpresa, pois nunca tinha encadenado um 8o em flash e não esperava que isso ocorresse somente duas semanas após eu voltar a escalar! A via é bem legal, são 10 costuras por onde se encontram regletes, batentes, um descanso que zera e mais regletes.

Satisfeita com as cadenas, passei o resto da tarde na Divisa dando seg e fazendo social, porque com o frio que estava lá resolvi poupar meus dedos congelados.

Esse fim de semana o plano é me reencontrar com o Campo Escola 2000!


Roda Viva 4º VI, 160 metros, Morro da Babilônia, Urca

No fim de semana passado, com a finalidade de preservar o meu dedo em recuperação, decidi fazer uma via tradicional na Urca. Como o tempo era curto, fiz somente a primeira enfiada da via Diedro de Pégasus, graduado em 4º. Como o nome diz, é um diedro bem legal, com oposição, fenda e agarras boas, gostei bastante. Mas ficou a vontade de fazer uma via mais longa, então deixei marcado com o Richard Steidel, alemão que está morando no Rio, para escalarmos uma via inteira na terça-feira à tarde.

A via escolhida foi a clássica Roda Viva, localizada no Morro da Babilônia, Urca. A via é um 4º com crux em 6º na terceira enfiada. O Richard começou guiando a via, então, por sorte, sobrou para ele guiar os lances de 6º. Na verdade, eram bem protegidos e participando não senti muito desconforto em fazê-los.

 

Final da via Roda Viva, com o Pão de Açúcar ao fundo. Foto: Bianca Castro cuidadosamente segurando seu Iphone para ele não se jogar.

 

Guiei a segunda e quarta enfiadas. A segunda enfiada era bem tranquila, mas assumo que fiquei com medinho no final da quarta enfiada, uma diagonal com as proteções não tão próximas, e fui ver depois no Guia da Urca, que é um 5ºsup!  Guiar vias de 8º grau negativas é uma coisa, lances de 6º e 5ºsup em positivo outra completamente diferente! A sorte, para a minha cabeça, era que na hora da escalada eu não sabia a graduação e só mentalizava que não poderia cair. Deu certo, hoje estou aqui escrevendo sem qualquer machucado e feliz pela escalada!

Apesar de a logistica para fazer uma via tradicional ser bem diferente, em comparação com as já adoradas vias esportivas, gostei muito da escalada e pretendo fazer outras paredes em breve, tendo como objetivo a clássica via Italianos, no Pão de Açúcar. Mas antes tenho que me acostumar com as longas horas e lances positivos com a dolorosa sapatilha no pé.

Agora chega de papo, hora de arrumar as coisas e ir a São Bento do Sapucaí para mais um feriado incrível na Arco brasileira!


Petzl RocTrip I – Eu Vou!

Tem anos que assisto maravilhada aos vídeos do Petzl RocTrip – Millau, Gunks, Kalymnos, Zillertal, China, entre outros – e penso como o evento é incrível e eu gostaria de estar lá! Mas sempre ocorrem bem longe do Brasil (o último foi na China!), o que dificulda a ida de qualquer brasileiro.

Este ano o Petlz RocTrip, como muitos já devem saber, será na Piedra Parada, Argentina, ou seja, aqui do lado!

Desde que eu vi o vídeo, tive uma grande vontade de ir, mas sou muito preguiçosa, libriana (descobri recentemente que quem é libra não consegue tomar decisões definitivas facilmente) e ainda estava receosa com o meu dedo.

Semana passada tudo mudou. Antes de receber alta para escalar, deixei a própria médica decidir se eu ia ou não para a Argentina, logo se eu fosse liberada para escalar, eu iria ao Petzl RocTrip. E fui liberada, ou seja, duas notícias boas em uma só!

Ontem comprei as passagens, que magicamente ficaram 300 reais mais baratas comparando com o preço que tinha visto no final da semana passada, então Piedra Parada ai vou eu! Só não quero que chegue logo, porque preciso treinar para tentar chegar perto da forma com a qual parei de escalar, mas só de estar escalando em um lugar novo e totalmente diferente, num evento do porte do Petzl RocTrip já valerá muito a pena! Estou sabendo que vários brasileiro vão, o que vai deixar o evento ainda mais divertido.

Saio daqui na madrugada do dia 17 de novembro com os amigos Glauce Ibraim e Fabinho Muniz e antes de ir ao pico do evento, ficarei uns dias escalando em Bariloche. Muito animada e ansiosa, motivação a mais para os treinos e recuperação!

Mudando totalmente de assundo, segue o vídeo que o foca naja Rodrigo Nunes mandou, em que a francesa Mélissa Le Nevé está escalando, muito forte, em Rocklands: