Reflexões sobre Escalada Esportiva

Arquivo para fevereiro, 2013

Perdas e Conquistas

Acordei quinta-feira da semana passada com a ideia de fazer um post sobre motivação, treinos e novos projetos. Entretanto, ao ligar meu computador, recebo a devastadora notícia da morte do amigo Fabinho Muniz. A perda me fez perder qualquer vontade de escrever sobre os assuntos acima e pensar sobre como em um minuto as pessoas estão ali com a gente, treinando e escalando juntos, presentes em nossas vidas, e no momento seguinte não estão mais. O Fabinho vai, com certeza, deixar um vazio nos meus dias de treino, não por suas dicas preciosas, mas pela sua alegria e irreverência características.

Fabinho Muniz com a Piedra Parada ao fundo, Chubut, Argentina. Foto: Bianca Castro.

Fabinho Muniz pronto para o climb com a Piedra Parada ao fundo, Chubut, Argentina. Foto: Bianca Castro.

No fim do ano passado, conversamos, após voltarmos do Petzl RocTrip, e ele me falou que como estava com a resistência boa adquirida para a viagem, devia focar em força. Seguindo a sugestão do mestre, comecei a treinar força e deixei a resistência de lado, ainda porque está tão quente que fazer mais de 20 movimentos significa tomar um banho de suor. Dentre as vias de força aqui no Rio, escolhi três: Mundo Cão (9a), no Platô da Lagoa, Religare (9b), no Primatas, e Bambam (9a), no Campo Escola 2000.

Mundo Cão saiu bem rápido, no início e dezembro. A Religare foi a alegria do meu final de ano, que saiu em cinco pegas, e tenho que agradecer aos betas que peguei do vídeo da escaladora carioca Raquel Guilhon, além da vibe incrível da galera que estava no Primatas na tarde do dia 29 de dezembro.

O que mais me deixou feliz com a cadena desta via foi constatar, novamente, que treinos específicos realmente funcionam. Como treinamento, fiz muitos boulders, séries de barra e de campusboard, sendo que no caso do último realizei exercícios de blocada e rebotada, exigidos no crux da linha.

Então, segue um conselho: se você tem um projeto, dedique-se a ele, treine para encadená-lo. Especialmente via esportivas, tipo de escalada que me dá mais prazer em praticar, não adianta só ficar indo ao muro de escalada para entrar em algumas vias ou alguns boulders, socializando mais que escalando. É necessário foco e dedicação para que o final feliz chegue mais rápido. Se a via é de resistência, faça milhões de movimentos, se a via é de força, faça milhões de boulders e barras! Claro, sempre prestando atenção no seu limite para que lesões sejam evitadas.

Religare (9b), Primatas, Rio de Janeiro. Foto: Imagem da filmagem feita por Gustavo Hachul.

Religare (9b), Primatas, Rio de Janeiro. Foto: Imagem da filmagem feita por Gustavo Hachul.

Depois de Itatim, me dei férias dos treinos e da escalada, meus dedos estava precisando de um repouso. Só os dedos que repousaram, porque o resto do corpo sofreu, e muito, com o ritmo imposto a ele pela minha animação durante o carnaval!

Antes de retomar os treinos, fui ao Primatas sofrer ao entrar pela primeira vez em uma via graduada em 9c. A Lula Lelé (9c) é uma linha bem curta e negativa, tendo como seu crux um dinâmico em um reglete de gaston. Me senti fazendo boulder, pois acho que foram mais de 30 tentativas sem sucesso para tentar isolar o crux. Depois do crux, ainda tem uma sequência de regletes bem doídos e o crux da Religare! Mesmo sabendo que a via está bem além do meu nível, eu adoro tomar espancos, me motivam a treinar mais forte.

Esta semana que passou, voltei a treinar. Não foi como eu gostaria, pois estava quebrada da Lula, então não comecei o treino de resista, mas hoje não tenho desculpa. Serão dois dias de força e um dia de resistência por oito semanas, forma que escolhi para me preparar para o Festival de comemoração dos dois anos da 4Climb!

Voltando aos projetos, este final de semana fui ao Campo Escola 2000 sofrer na dura Bambam. Acho que foi há dez anos atrás a primeira vez que fui à Floresta e sempre respeitei muito esta via! Não sei se era pela sua graduação que na época era algo muito distante para mim ou por ver poucos dos que se aventuravam a tentá-la sofrendo em seu começo com regletes pequenos, calcanhar e pé na mão.

Já tinha dado dois pega sna via em janeiro e assumo que sofri bastante com o seu começo tenso. No sábado, na companhia de Rafael Rebello, Glauce Ibraim e Raissa Dias, voltei ao projeto. Na primeira entrada, isolei todos os movimentos, com mais facilidade do que na visita anterior. Na segunda, para minha surpresa passei do que para mim era o crux, mas caí em seguida no verdadeiro crux da via.

O clima na floresta, ao contrário do resto do Rio de Janeiro, estava ótimo, coloquei até um casaquinho e tive que aquecer meus dedos antes do terceiro pega! Tomei um pouco de café e fui para a última tentativa do dia, que, surpreendentemente, foi bem sucedida! A felicidade foi enorme quando pequei na fendinha da via que, eufórica por ter passado da parte mais difícil e acelerada por causa do café, tive que me controlar e dar uma descansada para não cometer erros no final da via.

Encadenar esta via tão clássica e tão psicologicamente imponente deu uma alegrada nesta semana de perdas. Mas, infelizmente, não poderei contar para o Fabinho da cadena hoje quando for treinar. Aviso a quem quiser comparecer que nesta quinta-feira vai rolar uma homenagem ao Fabinho no Evolução, local onde ele trabalhava.

Termino este post com o vídeo da queridíssima produtora Little Up, com a não menos querida escaladora mineira Robertinha Resende, escalando a via Bambam. Treinem forte e boa semana a todos!


Itatim

Após um feriado em São Bento, o Camilo Jacob me convenceu a conhecer Itatim, cidade localizada há 4 horas de Salvador, Bahia. Entretanto, quando em outubro do ano passado eu comprei minha passagem para Salvador, não imaginava o que me esperava.

Embarquei para Salvador no dia 24 de janeiro, de manhã bem cedo, com Malte Heuer e Ritchi Steidel. Malte ficou em Salvador para visitar sua família brasileira e eu fui direto com o Ritchi para a rodoviária pesando somente em chegar o mais rápido possível em Itatim. Não foi tão rápido assim, chegamos na (bem) pequena cidade por volta de 16h, já deslumbrada com a quantidade de pedra que tinha no entorno da cidade.

Secos para escalar, andamos direto para o Morro da Toca, entre uma vegetação bem peculiar de cactus e palmeiras, sob um sol escaldante!

Morro da Toca, Itatim, Bahia. Foto: Camilo Jacob.

Morro da Toca, Itatim, Bahia. Foto: Camilo Jacob.

Cansados da viagem e perdidos entre as várias vias, entramos só em uma via que eu acredito ser a Catingueira (6º).

Depois do primeiro contato com a pedra, fomos ter o primeiro contato com a casa onde nos hospedaríamos pela próxima semana. A casa dos escaladores, como é conhecida na cidade, é uma casinha alugada pelos escaladores da região – como o nome diz. Bem aconchegante e arrumadinha, foi um convite para ficarmos dormindo o dia seguinte inteiro. O sol em Itatim é muito forte e sexta fazia muito calor! Eu estava meio doente e o Ritchi também, então o descanso foi providencial para aproveitarmos o final de semana de escalada com Camilo, Filipe Silva e Tiago Reis, que chegaram sexta-feira à noite.

Sábado fomos logo cedo conhecer o setor Jararaca e suas vias impressionantes em teto. Além das vias incríveis, a vista do pico é surreal, difícil acreditar que era de verdade.

Setor Jararaca, Itatim, Bahia. Foto: Bianca Castro.

Setor Jararaca, Itatim, Bahia. Foto: Bianca Castro.

Visual impressionante do Jararaca. Foto: Ritchi Steidel.

Visual impressionante do Jararaca. Foto: Ritchi Steidel.

No primeiro dia no Jararaca, comecei me aclimatando com o estilo forte das vias. Entrei para aquecer na via Mimi Jando (7a) e logo em seguida na Salim Não Está (7c), sendo que ambas saíram de flash. Em seguida, fui tentar a Los Vagabundos (7b) à vista, mas assumo que tomei uma certa surra e a via só saiu na terceira entrada.

Los Vagabundos, Jararaca, Itatim, Bahia. Foto: Camilo Jacob.

Los Vagabundos, Jararaca, Itatim, Bahia. Foto: Camilo Jacob.

Ritchi na Salim Não Está (7c), JAraraca, ITatim, Bahia. Foto: Camilo Jacob.

Ritchi na Salim Não Está (7c), Jararaca, Itatim, Bahia. Foto: Camilo Jacob.

Depois dos 7os, resolvi aproveitar os betas dos locais Camilo e Filipe e entrar na via Sine Qua Non (8c), clássica do pico. Fui gostando cada vez mais da via a cada movimento, a linha é linda demais e exige bastante trabalho de calcanhar. Tentei tirar certinho todos os movimentos e memorizá-los. A parte mais difícil é com certeza o começo, mais ou menos até a quarta costuras, com direito a três rebotadas em regletes bem pequenos. Depois tem um descanso sem as mãos muito legal e ainda tem um movimento que talvez derrubasse, mas eu acreditava que acertando as rebotadas, a via sairia.

Desci da via totalmente impressionada e vidrada com a sua movimentação. Descansei e dei mais um pega. Fui fluindo, ainda um pouco perdida, até que acertei as três rebotadas! Depois foi só administrar o resto da via – felizmente a minha resista está em dia – e encadenei meu segundo 8c de segunda tentativa! Quando desci da via, lamentei um pouco a cadena, pois não precisaria entrar de novo na linha 🙂

Descanso no hand na lindíssima Sine Qua Non (8c), Jararaca, Itatim, Bahia. Foto: Ritchi Steidel.

Descansando no hand na lindíssima Sine Qua Non (8c), Jararaca, Itatim, Bahia. Foto: Ritchi Steidel.

Apesar da vontade de voltar ao Jararaca no dia seguinte, aceitei a sugestão de conhecer outro setor. Domingo foi dia de escalar no Enxadão, um morro impressionante de cerca de 300 metros, mas, claro, ficamos só nas esportivas.

Enxadão, Itatim, Bahia. Foto: Juan Alves - http://escaladaitatim.blogspot.com.br

Enxadão, Itatim, Bahia. Foto: Juan Alves – http://escaladaitatim.blogspot.com.br

O pico é totalmente diferente do Jararaca, predominando vias 90º e levemente negativas, mais longas, com mais ou menos 25 metros, e regletes. Entramos em alguns 7os: Questões Éticas (7a), Sei Nada (7a) e Piratas do Caribe (7b). Mas a via filé do pico é a Sãotanás (8c), aberta pelo Filipe. A linha tem um crux forte em agarras pequenas entre a segunda e terceira costuras e depois pega na continuidade. Depois do Camilo equipá-la e o Filipe ser expulso pelas abelhinhas que moram numa fenda logo ao lado da via, entrei bem descompromissada, pensando em seguir a mesma tática da Sine Qua Non, ou seja, ir parando nos movimentos para tirá-los com precisão.

Apesar do medinho que eu senti em cair, passei do crux e fui tocando com os betas, que não puderam ser gritados para não atrair as abelhas. Quando eu vi, já estava no final da via e a cadena saiu em flash! 8c em flash, fiquei muito feliz! Vejam algumas fotos:

Passada de mag delicada no crux da Sãotanás (8c), Enxadão, Itatim, Bahia. Foto: Ritchi Steidel.

Passada de mag delicada no crux da Sãotanás (8c), Enxadão, Itatim, Bahia. Foto: Ritchi Steidel.

Sãotanás 02

Foto: Ritchi Steidel.

Foto: Ritchi Steidel.

Foto: Ritchi Steidel.

Após a escalada no Enxadão, o Camilo nos levou de carro para conhecer as pedras que existem além de Itatim. É impressionante o potencial que existe naquele lugar, mas, infelizmente, a escalada é muito pouco difundida na região, existindo apenas um pequeno grupo de escaladores que abrem vias por lá. É triste dizer, mas tem muita pedra para pouco escalador!

Após um final de semana de muita escalada, segunda foi dia de descanso. O Malte chegou de Salvador, trazendo um amigo, o Zé Silva, que estava de caminho a Lençóis.

Tanto terça quanto quarta, fomos novamente ao Jararaca, setor que acredito ser único no Brasil – pelo menos eu não ouvi falar de nada parecido! Como o pico fica a uns 5 km da casinha, fechamos com dois mototáxis de nos levar de manhã bem cedo e pegar no final do dia. O esquema foi bem tranquilo, pagamos 10 reais ida e volta, que totalmente valem a pena pela qualidade da escalada lá.

Terça fiquei de baianagem e só dei dois pegas, suficientes para encadenar a via Lara Quer Biscoito (8a) – ou seria loro? -, via bem legal com um crux definido de blocada, encadenada na quarta pelo Ritchi também. Acho que o Malte entrou no 6o (que eu não lembro o nome), na Mimi Jando (7a) e equipou a Salim Não Está. Já o Zé teve seu primeiro contato com a escalada entrando de top no 6o.

Ritchi no primeiro descanso da via Lara Quer Biscoito (8a), Jararaca, Itatim, Bahia. Foto: Bianca Castro.

Ritchi no primeiro (e pequeno) descanso da via Lara Quer Biscoito (8a), Jararaca, Itatim, Bahia. Foto: Bianca Castro.

Quarta foi dia de escalar a muerte, já que seria o último dia de climb! O Malte, na segunda entrada do dia, encadenou a Salim Não Está, seu segundo 7c! O Ritchi entrou uma vez na via Fecha a Cara Pra Falar Comigo (8a), mas ficou na função fotos. Eu dei dois pegas nesta via e dois na via Disciplina Não Ter, Calango Nunca Será (8b), sendo que esta última é linda demais, com direito a pinças no teto! Das vias em que eu entrei, ela só fica atrás da Sine Qua Non, recomendo demais!

Malte na Salim Não Está (7c), Jararaca, Itatim, Bahia. Foto: Bianca Castro.

Malte na Salim Não Está (7c), Jararaca, Itatim, Bahia. Foto: Bianca Castro.

Disciplina Não Ter, Calango Nunca Será (8b), Jararaca, Itatim, Bahia. Foto: Ritchi Steidel.

Disciplina Não Ter, Calango Nunca Será (8b), Jararaca, Itatim, Bahia. Foto: Ritchi Steidel.

Quinta-feira acordamos com calma, arrumamos as coisas e começamos a viagem de volta ao Rio de Janeiro, já com saudades da vida simples e escalada de qualidade que encontramos em Itatim. A única reclamação que eu tenho para fazer sobre cidade é o péssimo gosto para cerveja dos locais. Tive que passar uma semana à base de Skol, Schin e Glacial (?)! Só quando estávamos esperando o ônibus para Salvador que achamos um bar milagroso que vendia garrafa litrão de Brahma. Tivemos que tomar duas!

Preciso fazer alguns agradecimentos especiais! Primeiro ao Camilo, pela propagando que ele me fez de Itatim, decisiva para eu visitar o pico, e por ter me mostrado as vias do Jararaca e Enxadão. Segundo ao Filipe, que abriu inúmeras vias em Itatim (parabéns!) e me deu os betas decisivos para passar em flash pelo crux da Sãotanás. Terceiro à Carol Nogueira, pelas informações e contatos na cidade. Por último, mas não menos importante, agradeço ao Evolução, pelo espaço de treinamento que permitiu que eu me preparasse adequadamente para a viagem, o que resultou em inúmeras cadenas e FFAs!

Mais fotos de Itatim aqui.