Reflexões sobre Escalada Esportiva

Arquivo para outubro, 2013

#100

Depois de um post do desabafo, vem o post da realização!

A programação do final de semana passado foi bem cheia, com direito a sessões do Rio Mountain Festival, antigo Banff, e show do Aerosmith. Já tinha decidido que só escalaria no domingo e a chuva também confirmou isso.

Sexta tive o prazer de conhecer a Ana Lígia Fujiwara e o Rafael Rodrigues, criadores do EscaladaInt e idealizadores do filme Elas na Pedra, e Clark Eising, representante da Five Tem no Brasil, que me entregou várias coisas da Five Ten, nova marca que me apoia (post oficial em breve!).

Depois de assistir a filmes inspiradores tanto sexta quanto sábado, domingo era dia de escalar novamente na Barrinha e tentar meu projeto Crux com Filezão (10a). Depois de uma chuva absurda na sexta, preferi ligar domingo de manhã para o Claudio França, que estaria na Barrinha mais cedo, para garantir que a ida não seria em vão. Ouvindo que o final da via estava meio molhado, mas secaria, não pensei duas vezes e fui à falésia junto com Reynaldo Pires, Mari Farrão, Alexandre Pereira e Diego Botafogo.

Como as vias lá são enormes, só tenho dois pegas de cadena por dia. Assim, equipar a via seria um desgaste a mais e o Alexandre vez o imenso favor de colocar as costuras para mim! Além disso, ele deu uma secada nas agarras do fim e deu a seg da cadena!

Dei a primeira entrada por volta de 13 horas, com direito a filmagem do Diego, que fará um vídeo sobre o feito. Caí no meio do crux, pois não confiei no trabalho de pé que faço, o qual é bem tenso. Fui até a penúltima costura da via para ver as condições e realmente havia algumas agarras bem babadas, especialmente os descansos.

Centésimos antes de cair no meio do crux da via. Foto: Guilherme Ferraz.

Centésimos antes de cair no meio do crux da via. Foto: Guilherme Ferraz.

Desci da via e ela já estava no sol, o que ajudou a melhorar um pouco as condições. O plano era dar o segundo pega somente no final da tarde. Descansei o máximo e fui entrar novamente somente depois da 18 horas, o que foi possível com o início do adorado horário de verão!

Fiz o começo da via, uma sequência linda e técnica com regletes pequenos, quase sem cansar. Lembro até de pensar no primeiro descanso, como eu tinha feito os movs no automático. Além de úmido por causa da chuva, o calor carioca não estava ajudando, mas consegui administrar com calma a escalada e ignorar a babação.

Apertando os regletes no início da via. Foto: Guilherme Ferraz.

Apertando os regletes no início da via. Foto: Guilherme Ferraz.

Ao longo da via, eu parava nas agarras de descanso e sentia que não precisava ficar muito tempo por estar pouco cansada, o que mostra que os treinos surtiram efeito – adoro constatar isso! Cheguei no descanso antes do crux com esse sentimento, mas fiquei mais do que o necessário para repassar bem os movimentos, acertar a respiração e mentalizar que eu conseguiria mandar a via.

Super produção durante a escalada, com direito à filmagem pelo Diego Botafogo. Foto: Guilherme Ferraz.

Super produção durante a escalada, com direito à filmagem pelo Diego Botafogo. Foto: Guilherme Ferraz.

Passei bem da primeira parte do crux, mas fiz muita força na segunda para segurar um mini pêndulo ao cair de ombro em uma agarra boa. Felizmente consegui segurar, eu realmente achava que iria cair e foi uma surpresa quando me ajeitei na agarra para descansar. É nessa hora que milhões de pensamentos enchem a cabeça e é preciso segurar a emoção, ainda mais porque, neste caso, eu tinha que administrar as agarras babadas.

Por fim, ignorei as condições e consegui encadenar a via, que foi muito especial, pois eu a havia escolhido para ser a minha cadena número 100. Há algumas semanas, contabilizei minhas vias e constatei que tinha 99 cadenas. Queria uma via marcante para ser a número 100 e domingo adicionei meu segundo 10º ao caderninho (ou 8a.nu)!

Agradeço a vibe da galera que me apoiou durante esse projeto, já citados no facebook. Foi muito legal encontrar com as pessoas tanto na Barrinha quanto em outros lugares e ouvir palavras de incentivo! Obrigada também CAMP, Cassin, Deuter, Edelweiss, Evolução, Five Ten, Sapo Agarras e Verticale pelo apoio.

Fiquei muito feliz com as mensagens de parabéns pela cadena que recebi de pessoas próximas e outras nem tanto. Receber essa vibe é muito motivante!

Agora é pensar na última etapa do Rio Boulder Fest, que ocorrerá neste domingo no Limite Vertical, e no próximo projeto, ainda indefinido!


A Batalha dos Projetos

Este post será mais introspectivo do que descritivo, como de costume, porque não tenho nenhuma novidade concreta, leem-se viagens, cadenas e campeonatos.

Isso porque finalmente estabeleci, de verdade, um projeto para o qual estou treinando e consumindo minha motivação para lidar com a frustração de ainda não ter encadenado a via Crux com Filezão (10a), variante que inicia na Crux com Certeza (9b), emendando na Filezão (9c). Acho a linha perfeita, porque pega as melhores partes das duas vias!

Início da Crux com Filezão (10a), Barrinha, Rio de Janeiro. Foto: Flavia dos Anjos.

Início da Crux com Filezão (10a), Barrinha, Rio de Janeiro. Foto: Flavia dos Anjos.

Descanso da emenda da Crux com Certeza (9b) com a Filezão (9c). Foto: Flavia dos Anjos.

Descanso da emenda da Crux com Certeza (9b) com a Filezão (9c). Foto: Flavia dos Anjos.

"Relaxando" e curtindo a vista. Foto: Flavia dos Anjos.

“Relaxando” e curtindo a vista. Foto: Flavia dos Anjos.

Neste ano, eu ainda não tinha realmente escolhido uma via que estivesse além da minha capacidade de escalá-la em poucas entradas. Logo que constatava que demoraria a mandar determinada via, eu optava por deixa-la de lado e treinava mais para encadená-la. Isso aconteceu com a Heróis da Resistência (9c), uma vez que quando fui ao Cipó este ano pela primeira vez tendo ela como objetivo e constatei que estava além da minha capacidade, resolvi tentar outras vias e treinar mais para uma próxima viagem. Resultado, voltei com mais resistência na trip seguinte e a cadena saiu sem muita dificuldade.

Com a temporada de boulder e Rio Boulder Fest, me dediquei nos últimos meses à prática e treinamento dessa modalidade. Assim, perdi aquela bela resistência que me permitiu atingir minha melhor forma em maio e junho, mas ganhei força, massa muscular e uma série de lesões, as quais estou carinhosamente chamando de metástase.

Por causa da metástase e pela minha real paixão pelas vias mais longas, abandonei o treino de força antes do tempo, ou seja, faltando a última e decisiva etapa do Rio Boulder Fest. Na vida há certas escolhas que devem ser tomadas, das quais esperamos não nos arrependermos. Até o momento, entendo que foi uma boa escolha, pois estou sentindo muito menos dor nos dedos – lesão que mais me preocupava!

Dessa forma, estou “preservando” meu corpo e ao mesmo tempo me preparando novamente para as vias da Barrinha, sendo a escolhida da vez a Crux com Filezão. Já foram 8 entradas, algumas delas para relembrar os movs das duas vias originais, que, da maneira que eu betei, somam 107 movimentos. Tentando e acreditando na cadena foram 4 pegas e a cada queda, tenho certeza que aprendi algo que no final ajudará no sucesso desta batalha. Chamo de batalha, pois acredito que sempre que se tenta muito uma via, a cadena se torna uma luta física e psicológica, ou seja, contra as limitações do seu corpo e bloqueio mental. Na verdade, não tentei a via muitas vezes, mas como ela é muito grande, a queda e consequente necessidade de percorrer todo aquele caminho novamente dá uma desanimada. Aí que entra o fator motivação.

Neste caso, a minha motivação em continuar tentando este projeto está amparada em três evidências: (i) eu estou treinando resistência tem menos de duas semanas, ou seja, estou no período em que a escalada em rocha está prejudicada pela carga dos treinos; (ii) estou relativamente limitada pelas minhas lesões e tentar um 10º grau como escalada terapêutica não é algo fácil ou até recomendado, mas como não estou sentindo dor, fico feliz por poder escalar na Barrinha; e (iii) eu tenho total confiança que posso mandar essa via, ainda mais porque já mandei as duas vias originais, só tenho que “emenda-las”.

Além disso, como disse acima, a cada entrada na via aprendo um pouco e melhoro os movimentos para que a próxima entrada seja ainda mais fluída. É a arte de transformar a frustração em motivação e sobre isso, tem esse vídeo antigo, mas um dos meus favoritos, da escaladora americana Lisa Rands.

Assim, tento minimizar a frustração dos pegas sem sucesso, apesar de que, em alguns momentos, é difícil, o que me faz admirar ainda mais os escaladores que ficam anos tentando o mesmo projeto.

Apesar da previsão do tempo desfavorável, vamos torcer para domingo estar sol, pois a via me aguarda para, espero, deixar de ser projeto!

De qualquer forma, o final de semana já será de escalada, pelo menos no cinema, pois ocorrerá o Rio Mountain Festival, antigo Banff, e eu já comprei o ingresso para o horário do Elas na Pedra, filme que quero assistir tem tempo!


Cocalcinhas / 2ª Etapa do Rio Boulder Fest

Esses assuntos mereciam posts em separado, mas a falta de tempo semana passada, devido ao imenso número de sessões de fisioterapia e ressonâncias, terei que os juntar neste único post.

Cocalcinhas 2013

Fácil um dos eventos que eu mais aguardei este ano, tanto pela oportunidade de retornar ao Cocal, quanto pelo meu envolvimento em sua organização. Mesmo do Rio, dei meu máximo para ajudar as organizadoras, que merecem ter seus nomes citados pelo empenho e sucesso do Cocalcinhas: Ariana Ribeiro, Erika Carvalho, Gabi Oliveira, Luisa Resende, Mari Eloy e Mari Maroccolo, vocês mandaram demais, o Cocalcinhas foi lindo!

O festival foi incrível, com direito a muita escalada, risadas, homens com unhas pintadas e travestidos e muitos prêmios, gentilmente cedidos pelos apoiadores do Cocalcinhas. Agradeço, em especial, à CAMP, Deuter, Five Ten e Sapo Agarras, marcas que me apoiam e acreditaram no evento, fornecendo alguns dos prêmios mais cobiçados!

Os setores escolhidos para a confraternização foram a Ecovila (sábado) e o Saci (domingo). Ecovila eu já conhecia, mas sempre bom voltar, pois acho o blocão principal muito bonito e com linhas maravilhosas.

Extensão do Abençoado por Deus (V7), Ecovila, Cocalzinho de Goiás, GO. Foto: Pedra Viva.

Extensão do Abençoado por Deus (V7), Ecovila, Cocalzinho de Goiás, Goiás. Foto: Pedra Viva.

É legal ressaltar que o Cocalcinhas foi o primeiro evento em Cocal com a autorização do Parque Nacional dos Pireneus, o que mostra que a relação entre a Associação de Escalada do Planalto Central – AEP e os “Rangers” está cada vez melhor e, para que esta associação ganhe mais força, é importante que os escaladores locais se associem! Foi bonito de ver os escaladores respeitando o horário estipulado pelo parque e deixando o pico cedo para que o Cocalcinhas seja o primeiro de muitos eventos autorizados.

A escalada no Saci, domingo, foi novidade, mas gostei bastante do setor. Entrei em alguns boulders clássicos, como o Mongane (V5), que saiu de segunda, e Saci (V6), que tem um calcanhar esquerdo monstro e só me deu uma chance, sem sucesso, de tentar.

Saci (V5), Saci, Cocalzinho de Goiás, GO. Foto: Gabriel Azevedo Ribeiro.

Calcanhar monstro do Saci (V6), Saci, Cocalzinho de Goiás, Goiás. Foto: Gabriel Azevedo Ribeiro.

Acredito que, com o sucesso dessa edição, o Cocalcinhas se tornará um evento anual, com o importante papel de fomentar o crescimento da escalada feminina no Planalto Central e em todo o Brasil. Preciso agradecer o empenho das meninas do cerrado nas caronas que recebi para chegar e sair de Cocal e ir ao aeroporto segunda-feira de manhã, obrigada mesmo às Marian(n)as Alves, Maroccolo e Eloy!

Vibe mor no cocalzinhas: Mari Maroccolo, Mari Eloy, Glauce Ibraim, Gabi Oliveira e eu.

Vibe mor no Cocalzinhas: Mari Maroccolo, Mari Eloy, Glauce Ibraim, Gabi Oliveira e eu.

Vídeo fresquinho do Cocalcinhas 2013 filmado e editado pelo Vitor Schietti!

2ª Etapa do Rio Boulder Fest

A 2ª Etapa do Rio Boulder Fest ocorreu no último domingo, no Centro de Escalada JPA, contando com diversos boulders abertos principalmente pelos route setters Ralf Cortês e Xandinho Flores. Achei as linhas tanto do festival quanto da final muito legais, parabéns! Parabéns também à Flavinha dos Anjos e ao Felipe Dallorto pela organização, além dos demais representantes da FEMERJ.

Infelizmente, por causa das minhas lesões, não pude treinar como eu gostaria, o que com certeza afetou meu desempenho, mas me diverti no campeonato e isso que importa, né? Senti falta apenas da vibe da amigona Glauce que está na trip eterna enquanto dure.

Rio Boulder Fest. Foto: FEMERJ.

Rio Boulder Fest. Foto: FEMERJ.

A próxima, e última, etapa ocorrerá no dia 27 de outubro, no Limite Vertical, e definirá o máster feminino, já que na primeira etapa eu fiquei em primeiro e a Luana Riscado em segundo e nesta segunda, a Lulu ganhou e eu fiquei em segundo.

Pódio Feminino: eu (2º), Luana Riscado (1º) e Angela Vargas (3º). Pódio Masculino: Caio Gomes (2º), Thiago Veloso (1º) e João Ricardo (3º). Foto: FEMERJ.

Pódio Feminino: eu (2º), Luana Riscado (1º) e Angela Vargas (3º). Pódio Masculino: Caio Gomes (2º), Thiago Veloso (1º) e João Ricardo (3º). Foto: FEMERJ.

Devido ao estado crítico em que alguns dos meus dedos se encontram, não poderei focar meu treino em boulder para a última etapa do carioca. Nesse próximo mês, vou treinar resistência, pois gostaria muito de mandar a variante Crux com Filezão (10a) ou talvez a Intrusos do Sul (9c), e não sofro tanto nos treinos de resista ou na escalada em rocha quanto fazendo boulder.

Crux com Filezão (10a), Barrinha, Rio de Janeiro. Foto: Flavia dos Anjos.

Crux com Filezão (10a), Barrinha, Rio de Janeiro. Foto: Flavia dos Anjos.

Fim de semana, partiu Barrinha, quem anima?